Obrigada

    De volta a Portugal, não sei onde meter tantas memórias. São oito meses de lugares, de cheiros, de aprendizagens, de desafios, de tantos risos, de algumas lágrimas e, sempre mais importante que tudo, das pessoas que enriquecem essas memórias. Isto, é uma ode e um obrigada: À Elvia pelas Afrotribais em Medellin, pelo arroz de coco e por me obrigar a ir ao Museu da Memória. Ao Nicola e ao David pelos atardeceres em Salento de Pokeron na mão e pelo churrasco de truta interminável. Ao Matt, ao Martijn e à Nynke pelos dedos lambuzados de manteiga e lagosta, os poemas à hora de almoço e o deslumbre ao pôr-do-sol, em La Guajira. À Isabel, por atravessar o Atlântico para vir comigo à descoberta de cidades perdidas. À Ale e ao Cris pelo Natal em familia na Granja Vidar. E à Gloria pelo sorriso franco e pelos livros. À familia Anthakarana por partilhar conhecimentos ancestrais, pelos momentos sentada na terra a ouvir Bahmar com ambil na boca e pelo Temascal. E à Klaudina e ao Dominique pelos cafés com canela, pelas tardes a escrever em conjunto, por nos ouvirmos nos momentos mais pesados. À Kara por me levar a dançar salsa nas primeiras horas em Cali. E pelo dancehall, pelos disparates, pelo riso fácil e conversas longas. À Tamara por partilhar disto tudo também. E pelas sestas e tendas e palavras partilhadas, que às vezes saem em inglês, às vezes em espanhol e às vezes alemão, no Lago Calima. Continue Reading →


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Viajar à Troca

  Se eu não trocasse alojamento por trabalho não me via no meio de Argentinos no meu primeiro dia em Baños, a prender fuego para um assado, recebida como em casa apesar de andarmos todos na estrada.   Não subiamos nove num carro para o monte oposto a um vulcão em erupção, para vê-lo expelir nuvens de fogo, o som da explosão a chegar segundos depois da imagem e das nossas exclamações de espanto e encanto, a lava a escorrer monte abaixo. A dona do hostel, Vivi, Equatoriana ao volante e 8 voluntários, eu, os Argentinos, uma Boliviana e uma Chilena, apertados e felizes entre o porta bagagens e os assentos, a sair do carro que não andava nas subidas mais ingremes, entre o riso e o deslumbre.     Se eu não trocasse alojamento por trabalho não passava Natal a fazer bunũelos e natilla, 12 à mesa entre voluntários e familia de Aleja e Cris. Um cheiro a tradição, ainda que diferente, que diminuía a distância a casa.   Se eu não trocasse alojamento por trabalho não aprendia a construir um Temascal, e não participava gratuitamente da cerimónia com pessoas preocupadas não com lucro, mas em que se cumpra a tradição. Não aprendia a fazer Ambil onde, emocionados, deixámos todas as intenções para o novo ano, e não o recebia dias depois, das mãos de Bahmar, o avô da ecovila, com os olhos embaciados e um abraço forte. Não me sentava com ele nos pneus que enchíamos de terra Continue Reading →


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Depois do Terremoto

Tivemos sorte. Paraísos houve que se volveram Infernos. Aqui, apenas vidro no chão, uma porta empenada, uma única noite na estrada. Fica o medo. De novos abalos fortes, que as cabanas podem não aguentar. De uma onda gigante, apesar da ausência de alertas, mas nós com o mar a dois passos. Fica o despertar subito. Uma cama que apenas abana em sonhos, ou talvez não, talvez a sério. O corpo já não distingue se treme sozinho ou com a terra. Mas tivemos sorte. Tanta sorte. Paraísos houve que se volveram Infernos. Aqui, os caranguejos continuam a espreitar com olhos curiosos, enquanto o sol se esquece que a terra se mexe e segue a esconder-se em banhos dourados, como num dia qualquer. Aqui, juntam-se vizinhos, troca-se a electricidade que uns têm e outros não pela comida que cozinhamos em comunidade. Rimos, entre recontares da mesma história, vezes sem fim. A cada vez um novo pormenor. Bebem-se cervejas na procura de uma normalidade que não existe. Trocamos olhares cumplices, acenares que perguntam sem palavras: Continuamos bem? Sim. Ainda que a terra continue sem parar. Ainda que, entre cortar um tomate e ligar o fogão tenhamos de sair a correr, porque tudo abana de novo, e o coração voltou à garganta. Ainda que os olhos se mantenham no mar, vigilantes. Ainda que a procura de sons de passaros, de sinais, seja constante. Ainda que estejam mochilas de emergência à porta dos quartos. Ainda que as noites se passem de olhos meio abertos. Continuamos Continue Reading →


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Sonhos Sagrados

  Última noite. O sol já se escondeu. Resta ainda a sua luz a pintar a franja  de céu por cima da cordilheira de amarelo. Antes, esteve laranja, lilás, azul claro e depois escuro, o quarto minguante a brilhar entre duas nuvens cor de rosa. Acabo como comecei. Sozinha, à luz das velas, atrás de um livro. Iron and Wine no ar, que esfria rapidamente enquanto a luz desaparece. Desceram todos a passar o fim de semana na vila. Eu quis ficar. Quando subi, estavam também lá em baixo.   Estas duas semanas na comunidade Sacred Sueños não foram nada do que esperava, mas também não sei bem o que esperava. Mais gente, seguramente. Ao mesmo tempo, estes momentos comigo são preciosos e apreciados. Não sei o que vinha buscar exactamente. Mas sei o que levo comigo:   O som de dezenas de pios de pássaros ao acordar.   O som das asas de um colibri, que ouço antes de ver o azul e verde brilhantes das suas penas, enquanto estou agachada a cheirar a rúcula da horta.   O deslumbre de quem, apesar de aqui viver há três anos, ainda se maravilha com a beleza dos castanhos e verdes de um outro colibri, que sempre se alimenta das flores da árvore mais alta do lado esquerdo do deck.   Aprendizagem diária. A plantar ervilhas, a cuidar de árvores de fruto, a podar, a construir estruturas com ramos para suportar as camas de terra para plantar, a revestir naturalmente paredes. Continue Reading →


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Sobre a poda (e a vida)

Enquanto melhoro o meu método de transporte das plantas, para garantir que as raízes não se secam, que sofrem o menos possível, e canto, com a música nos ouvidos, sinto uma alegria e uma paz que ainda não tinha sentido com esta plenitude aqui. Enquanto penso no desenvolvimento destas árvores, penso em como o nosso ritmo tem de acompanhar mais o da Natureza, slow and steady, e em como eu fui sempre assim. Nunca fui de velocidades, sempre de resistência. Não ganhava provas de natação porque nunca nadei rápido, mas podia estar a aula toda a nadar sem parar. Não entrei para o exército (felizmente!) porque fiquei logo pelo teste de velocidade, mas todas as outras provas passava com facilidade. Não faço amigos rápido, mas quando faço, mantenho-os. Não gosto de pressas. Enquanto olho à volta para os diferentes estágios de desenvolvimento das árvores penso que nós, como elas, também necessitamos dos nossos viveiros onde nos desenvolvemos mais protegidos quando estamos mais frágeis. Isso vai acontecendo por fases, ao longo da vida. Enquanto somos crianças, com quem nos cria, e mais tarde, de cada vez que, auto-inflingido ou por situações que fogem do nosso controlo, nos vemos demasiado pequenos para tudo o que nos rodeia. Aí, se temos sorte, tal como estas árvores que eu hoje podo, conseguimos um espaço protegido onde podemos largar aqueles ramos que já não nos servem, que apenas consomem energia inutilmente, que nos esgotam lutando por eles quando vão definhar de qualquer maneira. Se temos força suficiente, Continue Reading →


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Tudo isso é precioso

Quando estou no viveiro, só eu, a minha música e as plantas, o tempo voa. Seja a encher sacos de terra, a escolher e ordenar os sacos com plantas por tamanhos, ou a transplantar árvores em potência do local onde onde são semeadas para os sacos que preparei. Arrancá-las com cuidado, podá-las, criar espaço na terra do saco, enterrar a raiz, acrescentar terra, calcar. Repetir.   Hoje transplantei 80. Entre isso, recolher nêsperas, retirar-lhes os caroços (sementes) e pô-los a secar para daqui a uns dias semear, foram-se as quatro horas de trabalho da manhã. Senti-me útil. Senti que não tinha de me esforçar para entender e fazer-me entender.     Somos muito diferentes, esta família e eu. Sinto-me bem tratada, mas excepto nas conversas sobre ecologia com o Ramiro (o filho mais velho, que organiza estes voluntariados através da comuna) não me consigo identificar com estas pessoas. Para além da dificuldade em compreende-los quando falam entre si (é castelhano, mas com um sotaque e uns maneirismos que complicam muito a compreensão), não temos muito que partilhar. Já se fizeram as perguntas sobre a família, o trabalho… não sobra muito mais. As preocupações aqui são outras. Os animais, a horta, os vizinhos, os dentes (tantos problemas).   Doña Maria e Don Prudêncio, os pais, não sabem ler nem escrever e nunca saíram daqui. Ramiro fez o liceu e é um equatoriano atípico. Aos 41 anos, não casou nem teve filhos. Vive aqui, preocupado em ajudar os pais, e os irmãos. Continue Reading →


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De Quito, da nostalgia, e das certezas

  Seis e meia da manhã num hostel/hotel de hippies no centro de Quito. Acabei de dar um abraço de despedida ao Roberto, a cama dele está vazia e a parede onde se espalhava a sua mochila também. Olho para o tecto com um vazio no estômago. Quem é o Roberto? Um amigo antigo que veio acompanhar parte da viagem? Alguém que me acompanha à algum tempo? Alguém porque quem me apaixonei? Nada disso. O Roberto é um rapaz italiano que conheci há 5 dias em Popayan, na Colômbia. Calhou que eu estivesse a fazer couchsurfing na mesma casa que Hug, catalão, que em Cartagena se tinha feito amigo de Julian, francês, que calhou estar também em Popayan na mesma altura num hostel, onde estava Roberto. Calhou que, num dia em que Hug saiu para dar uma volta com Julian, Roberto os acompanhasse. Calhou que eu tivesse saido para ver o pôr-do-sol e os tivesse encontrado a todos na rua. E calhou que todos quisessemos viajar a Quito, no Equador, essa noite. Depois disso, calhou que Hug e Julian decidissem pedir boleia na manhã seguinte, já depois da fronteira e eu seguisse no segundo autocarro com Roberto.     Em Quito, instalados no mesmo quarto deste hotel, passámos 24 sobre 24 horas juntos. Isto poderia não significar nada, mas calhou também que o Roberto fosse alguém com quem as conversas eram fáceis e interessantes e os silêncios confortáveis. Alguém que partilhava o meu amor pelos livros, as palavras, a beleza e Continue Reading →


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Rotinas

  Costumava dizer que odiava rotinas. Associava a repetição dos dias, das tarefas, dos lugares a essa palavra. Rotina. 1. Caminho já trilhado ou sabido. = ROTINEIRA 2. Prática constante, em geral. = COSTUME, ROTINEIRA 3. Hábito de fazer uma coisa sempre do mesmo modo. = ROTINEIRA 4. Índole conservadora ou oposta ao progresso. = CONSERVADORISMO ≠ INOVAÇÃO 5. Sequência de instruções ou de etapas na realização de uma tarefa ou actividade. in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa   Algumas das coisas que me entusiasmam nas viagens são o movimento e a constante descoberta de paisagens, pessoas, costumes novos. Sair desse caminho já trilhado por mim, progredir, fazer coisas diferentes, de maneira diferente. O oposto da definição de rotina.   Depois de quase 2 meses em constante movimento dei por mim a pensar se afinal em vez de a odiar, sentiria falta de alguma. É que, apesar de ser estimulante a sensação de chegar a um sitio novo, não conhecer ninguém, entender como funcionam os transportes, como se movimentam as pessoas, o que comem, o que fazem, ao fim de um tempo, cansa. Ter de me apresentar todos os dias, contar a mesma história, tentar explicar o que sou,o que faço e porque o faço (quando muitas vezes nem eu sei bem), farta.   Ontem, enquanto subia a carrera 27 desde a escola de salsa até ao hostel num caminho que já faço de olhos fechados, dei por mim a agradecer por esta rotina que tenho em Cali.   Sabe bem Continue Reading →


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Dias de Campo

Há dias de acordar com as galinhas, e dias de já nem as ouvir. Há dias de ser a primeira, e dias de acordar para 4 cães a pedir festas e cheiro a café recém feito, o orvalho a fazer brilhar o verde. Há dias de mexer os ovos para o pequeno almoço, e queimar a primeira arepa, e dias de esperar no alpendre, livro na mão e sol na testa que a comida chegue à mesa. Há dias de recolher estrume de cabras, e galinhas e coelhos, e encher sacas de biocompost maduro, e dias de passar a manhã a escrever. Há dias em que, ao cair do sol, as cabras já estão no curral, mas uma se tenta escapar. Acho que é Olga. Nesses dias, Blas, o pastor alemão, fica sentado em frente ao portão, a guardar que não volte a acontecer. A essa hora, quatro galinhas já subiram para cima de um dos limoeiros, para dormir. Uma branca, uma preta, uma castanha e um dos galos, dourado, vermelho e preto. Cacarejam, de vez em quando. Richard Parker, o gato bege tenta subir a uma árvore. Desiste a meio e salta para o chão. Kini, um dos pequinois, dorme aos meus pés. Mago, o outro, dorme à porta do quarto. Kenia, a labrador preta está deitada na relva. Apenas se lhe vê a cabeça preta no meio do verde. Quatro patos passam a correr e a grasnar. Christian toma banho, Alejandra não sei onde anda e Gloria está Continue Reading →


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A Cidade Perdida

1200 degraus.   Ainda não são seis da manhã e já estamos em pulgas para saír. Ismael, o nosso guia, avisou-nos que devíamos ser os primeiros  a partir, se queremos apanhar a Ciudad Perdida sem gente. Nós queremos. Queremos muito. Separam-nos dela 20 minutos de caminho, e depois 1200 degraus. É o terceiro dia de caminhada, e foi para isto que suámos os outros dois.   …   Começámos às 11 horas do primeiro dia, depois de almoço. Não foi um dia particularmente duro, mas deu para perceber o que nos esperáva. Subidas intermináveis e humidade. Tanta humidade. Nós transpiramos e a terra transpira e tudo está molhado. O nosso suor fica empapado na roupa, o da terra evapora e fica preso nas árvores, no cimo das montanhas, formando manchas brancas de névoa no meio do verde. O suor da terra é mais bonito que nosso.   No segundo dia, subimos e descemos, subimos, subimos, subimos, descemos, descemos, descemos. Cruzamos o Rio Buritaca por uma ponte, afastamo-nos dele, subimos, descemos, subimos, descemos. A humidade torna o ar espesso, mais difícil de respirar. Há paisagens abertas lá em cima, a serra a toda a volta, verde, verde, verde, e paisagens fechadas cá em baixo, árvores que se debruçam sobre nós, verde, verde, verde. Subimos e descemos, subimos e descemos.   A terra é quase vermelha, há lama em muitas partes. Várias horas depois voltamos a cruzar o Buritaca, desta vez a pé. A água fria sabe bem. O banho de rio Continue Reading →


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Privilégio(s)

Aqui estamos. Ponto mais ao norte da américa do Sul, Punta Gallinas. Depois de dois dias aos saltos dentro do jeep. Depois de desertos que terminam no mar e desertos que nem vemos onde terminam. Planicies sem nada, nem vegetação rasteira, o solo gretado, a sombra de uma montanha na distância. Depois da vista do Pilón de Azucar, onde vimos montanhas, depois planicie, planicie, planicie. Amarelo, amarelo, amarelo e depois verde mar, ou azul mar, ou azul-verde mar. Depois do pôr do sol de cima do faro do Cabo de la Vela. Depois de adormecer com o sussuro e o cheiro do mar e acordar com a luz do nascer do sol, a bola dourada que recorta silhuetas a contra-luz e pinta o céu de cor de rosa. Depois dos pelicanos que passam a rasar a água, que é um espelho a essa hora. Depois de cactos e cactos e cactos, e árvores secas, e pó, e terra, e lama…paisagens lindas e desoladas. Depois de dunas que terminam a pique no mar. Depois de mergulhos nas ondas e de subir e descer essas dunas, aqui estamos. E aqui é lindo. Uma baía de água verde de um lado, e o mar do outro. A areia amarelo dourado, mangais verdes, mais cactos, conchas em lugares improváveis, testemunho de outros niveis de água. O vento que nunca permite o silêncio, que nos faz falar mais alto, mas que alivia do calor abrasador. Aqui estamos, partilhando cervejas, conversas e silêncios ao pôr do Continue Reading →


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Enquanto esperamos por peixe frito

Andamos há um dia e meio pela Peninsula de La Guajira. Ontem, já maravilhados com as cores do deserto, a contrastar com o verde do mar, onde esse mesmo deserto acaba, dormimos em Cabo de la Vela. Um telhado de folhas de palmeira e hamacas. Acordámos com o nascer do Sol nos olhos e em silêncio, cada um no seu canto da praia, vimos o céu passar de rosa a laranja a azul. O Sol a subir, a ficar mais pequeno e mais amarelo, a ganhar em calor o que perdia em côr. Agora estamos em Pusheo, diz-nos Fredy, o nosso condutor. Para nós é uma casa no meio do nada, onde vamos almoçar. Pedimos e esperamos. Martjin e Ninkje perguntam, em brincadeira, se alguém tem um poema para declamar, para passar o tempo. Matt puxa do seu caderninho. Tem dois. Um deles foi escrito esta manhã, enquanto víamos o nascer do sol. Lê-os. Então, porque palavras inspiram palavras, e lugares inspiram palavras, este é para o Matt e para La Guajira.   Falamos de pássaros sem asas e caranguejos transparentes que acordam, como nós, ao nascer do sol.   Falamos da vida que nasce dos buracos mais improváveis. De crianças que se aborrecem segurando correntes numa estrada que não é uma estrada. De crianças que nos fitam com olhos vazios, enquanto falamos uma língua que não entendem.   Falamos de cabras que dominam o caminho e são comida de gente que domina o inferno. Povo do vento.   Falamos Continue Reading →


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O Tempo das Palavras

Ensopada em suor e morta por um sítio fresco avisto uma prateleira de livros numa janela. Na esquina, uma porta e uma placa: Ábaco, libros y cafe. Entro, sento-me e peço uma limonada de coco. O calor lá fora aperta e a mim apertou-me bastante. Enquanto bebo a limonada de coco e as ventoinhas exercem o seu efeito refrescante, olho para o telemóvel em busca de indicações para os lugares que vou visitar a seguir. Vou olhando em volta. Sinto-me em casa, no meio dos livros e das paredes de tijolo. Escrevo algumas palavras soltas. Nesse momento a dona do lugar vem cumprimentar dois homens que se tinham sentado na mesa ao lado da minha. Conhece o mais novo, que lhe apresenta o mais velho, um homem de uns 60 anos, a quem tratam por doutor. “Teresa, mucho gusto”. O doutor começa a declamar um poema que ela também conhece. Fala de uma Teresa. Quando terminam ele convida-a a sentar-se. Ela tem umas encomendas para despachar, mas promete voltar. Termino a limonada e percorro as estantes de Literatura Colombiana. Já me faz falta um “livro livro”… papel. Tiro Efrain Medina Reyes, o Cinema Árbol. Não tem o preço, por isso dirijo-me  à caixa, na entrada. O balcão do café é em frente a esta, e estão a tirar fotografias do lugar e de pormenores. Perguntam-me se podem usar as minhas mãos para segurar um livro, junto a um café, para uma foto para a página de internet. Enquanto testamos posições Continue Reading →


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Carta(s) para Medellín

  Querida Medellín Creio que me ouviste. Que fui precipitada, e que trataste de me enviar as pessoas certas para que o visse. Mas comecemos pelo principio, pelo que te escrevi há dois dias. … Querida Medellín Não te percebo. Eu tentei, a sério a que sim, mas não consigo perceber o fascínio que os teus outros visitantes demonstram. És interessante, sim.  Não se fica indiferente aos contrastes físicos e geográficos da tua aparência. Os altos edifícios cor de tijolo com as casas das comunas, também cor de tijolo, mas baixas e a subir pelos morros. Essa cor de tijolo de ambos contra o verde das montanhas que te circundam, e dos cerros que se destacam no meio de ti. Não se fica indiferente à confusão, fumo e aspecto geral cinzento do teu centro, apesar de tudo mais autêntico que o circo para turistas que é El Poblado com hosteis, restaurantes, bares e discotecas que podiam estar em qualquer outro lugar do mundo. Não se fica indiferente à maneira como nos ensopas em suor, para logo nos largares uma tempestade em cima, ou ao contraste do ruído das ruas com o silêncio dos cerros. É interessante o bulicio dos teus mercados. Tens bolhas de cultura riquíssima espalhadas por ti. Tens um espirito divertido. As tuas pessoas são do mais simpático, sem ser servil, que tenho encontrado. Terás muito para dar, mas eu não me identifico contigo. Vamos tendo os nossos momentos. Pequenas descobertas como os concertos de ontem à noite, Continue Reading →


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Amañadita no Mercado

  Três andares de caos. Caos de bancas, apesar do ordenamento por sectores. Caos de corredores, e escadas. Caos de cores, de frutas, verduras, peixe, carne, queijo, óleos, chouriços, yogurtes, cordas, sapatos, roupa, restaurantes, bares. Homens, mulheres, crianças por todos os lados. Cheiro a ervas aromáticas, a maracujá, a peixe, a espigas de milho, a fritos, a álcool, a lixo, a café, a fumo, a queimado, a couves. Som de vozes indistintas, de música, de vozes que se misturam com a música, de vozes que se destacam: A la orden, a la orden, a la orden Bonita, que busca? Mi amor, a la orden. Muñeca, en que le sirvo? Mamita, mire. E eu miro. Vejo os maiores maracujás amarelos da minha vida, os maiores abacates, frutas que nem sabia existirem. Passo pelos bares onde, talvez por ser domingo, já há gente embriagada ao meio dia. Passo pelos restaurantes onde almoçam familias e velhotes de chapéu de abas. Desvio-me para deixar passar senhores que empurram carrinhos de mão a abarrotar de batatas. Paro a cheirar o rosmaninho pendurado ao lado de frasquinhos de remédios naturais, enquanto duas senhoras separam outras ervas. Por cima de uma banca grande, que vende de yogurtes a champôs, vejo o nome Portugal. Pergunto a uma das empregadas se o nome tem relação com o país. Diz não saber. A loja existe há dez anos, o nome vem dessa altura, mas não sabe o porquê. Digo-lhe que sou de Portugal. “Ah. Pues bienvenida a Colombia, a Medellín, al Continue Reading →


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La Candelária

Ao fim de três dias começo a ter a “minha” Candelária. Poderia dizer a minha Bogotá, uma vez que esta vai ser a Bogotá a que vou voltar pelo menos duas vezes por ano, mas Bogotá não cabe só no bairro La Candelária. Bogotá não cabe só em lado em lado nenhum. Toda Bogotá é um mundo de micromundos. O meu vai ser La Candelária e hoje começou finalmente a fazer parte de mim.   Presumo que o problema inicial tenham sido os constantes avisos para ter cuidado, que esta era uma zona perigosa. Isso e ter descido demasiado no primeiro dia, para além da Carrera 10. Vi-me, aí sim, numa zona confusa e feia onde achei realmente que, se não tivesse cuidado, podia acabar sem a carteira. Passei esse primeiro dia a caminhar sem olhar para mapas, para não dar nas vistas e sem entrar nas portas que levam aos pátios, verdadeiros tesouros da zona. Nada disto está escondido, é uma questão de zonas e eu tinha andado nas zonas erradas. Faz parte da descoberta. Entre as Calle 10 e 14 e as Carrreras 7 e 1 há um mundo de casas coloniais coloridas, universidades modernas, bibliotecas e livrarias (tantas bibliotecas e livrarias!), restaurantes e cafés, teatros (tantos teatros!). Há estudantes de todas as idades: miúdos que correm pelas ruas à hora de almoço, adolescentes que passeiam de mãos dadas, jovens adultos que se sentam nos muros ao fim da tarde, adultos que saem da universidade às dez da Continue Reading →


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Diário(s) de Bordo: Buzios, e a última noite

  No dia em que paramos em Buzios, antigo pequeno paraíso agora pejado de resorts, restaurantes e lojas de biquinis, o pior tempo desde Gibraltar. Um capacete cinzento e uma chuvinha que não ensopa, mas molha. São oito da manhã e ainda está tudo fechado. Assim, tranquilo, percebe-se o que deve ter sido, quando eram só morros verdes que desabam em baías  de areia dourada e mar azul. Do lado oposto da vila estão as praias maiores e mais tranquilas, ainda que com a frente de praia cheia de pousadas e vivendas. Caminhamos os 30 minutos que demora a chegar à Praia da Ferradura. Aí, a vontade entrar no mar, que nos rodeou nos ultimos 13 dias mas que não tocámos, não é mais forte que o vento fresco e a chuva miudinha. Pés na água é o suficiente. Voltamos à vila. Perdemos Clara, que fica nos correios a mandar coisas de volta à Suiça para aliviar a mochila. Vinte minutos depois de um sumo de manga com wi-fi perdemos a Mehl que volta ao barco para descansar da noite de ontem. O tempo não a convence. Eu e Fede caminhamos sem pressa pelo porto, pelas praias da vila, pelo passeio marítimo. Falamos da sua (nossa)  Argentina, de Lisboa, do lugar onde vai viver aqui mesmo, para onde se muda dentro de dois dias. “Hacer la temporada, o se me va bien, mas tiempo.” Os restaurantes dar-lhe-ão o emprego necesssário para não estourar o dinheiro ganho em Alicante, onde tem Continue Reading →


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Diário(s) de Bordo: Salvador- Buzios

Li nas minhas notas do início da viagem que encontrava poucas diferenças, com excepção do conforto, neste barco e nos da Amazónia. Essa afirmação só agora faz realmente justiça a si mesma. Embarcaram mais de 1000 Brasileiros. A música atingiu volumes nunca vistos, e é só Brasileira…da má. O ruído de fundo de gente é ensurdecedor. Há latas de cerveja por todo o lado na zona da piscina e do buffet.A piscina está a abarrotar, os jacuzzis idem. O menu mudou, para pior e é ver passar pratos a transbordar. É a selva… Mudei-me para a parte da frente do barco, um deck  exterior pequeno, à frente dos camarotes do 7º piso, onde não está ninguém. Volta e meia passa um grupo de dois ou três Brasileiros,  diz “Ai qui lindo”, tira uma selfie e volta para a confusão. Eu, voltei à minha rotina livro, caderno, dormir, repetir, até que o sol se ponha.


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Diários(s) de Bordo: Salvador da Baía

Dia 8: Os Argentinos Quem tem uns Argentinos tem (quase) tudo. Tem gente que te recebe como amigo onde quer que esteja. Mesmo que tenha acabado de te conhecer, e o sítio seja um cruzeiro. Tem sorrisos infinitos e gargalhadas sonoras. Tem palavrões que não soam a palavrões e um sotaque que se pega como cola. Tem 10 metidos num jacuzzi de 5, porque sim e tem bebidas que são sempre de todos. Tem sempre alguém com uma guitarra, que toca musicas que só os Argentinos sabem mas que nos põem a todos aos saltos, ou melancólicos, pela maneira como lhes sai de dentro. Tem festa, mesmo quando a festa já acabou: essa mesma guitarra e dois caixotes do lixo a servir de percussão, às duas da manhã no deck exterior de um cruzeiro. A tripulação em cima, nós em baixo, a dar-lhes e dar-nos musica. A separação existe, mas não gostamos dela. Então aí ficamos, com clássicos do rock Argentino e afins, a cantar e dançar porque hoje (ontem) é a última noite para alguns e amanhã vários braços deste abraço se distribuem pela América do Sul. Quem tem uns Argentinos tem tudo, e eu sou feliz de ir juntando mais tudos ao meu caminho. … Salvador da Baía. Ficámos só eu, o Angel e o Juan, espanhóis, O Fede e a Mehl, argentinos e a Clara, suiça. Juntei-me à mesa deles para jantar. Há ainda o Olaf, norueguês e o Zé e a Luísa, portugueses, que são uns Continue Reading →


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Diário(s) de Bordo: A travessia

  Dia 5: Equador 17.20h. Cruzámos neste momento a linha do Equador. Houve uma cerimóna qualquer na piscina. Eu estou no meu canto  na parte de trás do barco, mas ouvi o anuncio. Estamos no Hemisfério Sul e claro que tudo está igual ao que era há um minuto atrás. Mas é uma sensação agradável saber que já cruzei esta linha pelo ar, numa ilha e agora no mar. E que provavelmente o farei no país com o mesmo nome nos próximos meses. … O mar está calmo. O sol a pôr-se dá-lhe aquela tonalidade negra de espelho, mas há um vento que agita ligeiramente a superficie. Dá-lhe textura, como se estivesse arrepiado. Eu tenho pele de galinha, e o mar tem pele de galinha e isto é tudo incrivelmente belo.     Dia 6: Agitação Falhei o pequeno almoço e estive deitada a dormir na espreguiçadeira o dia quase todo. Não vi os Argentinos, o Matias não desceu para jantar e o Camilo estava branco. A piscina ganhou ondas. Estamos todos meio zombie e andamos aos esses. Ninguém sabe muito bem se é só a agitação do mar ou efeitos secundários da agitação de ontem à noite. Provavelmente dos dois.     Dia 7: Do tempo Em dois dias chegamos a Salvador e a maior parte das pessoas com quem me comecei a dar desembarca. Agora, que tudo é já natural. Nada a fazer, eu sou assim mesmo. As coisas acontecem-me devagar e gosto que assim seja. Que as amizades, Continue Reading →


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