Abençoada (na) Índia

Do lado Oeste do Taj Mahal, de frente para e junto ao rio Yamuna, existe um crematório. Não era disso que vinha à procura, quando me dirigi para longe da multidão de TajGanj, o bairro em torno do monumento. Contornando-o e seguindo por ruas sem trânsito no meio de um parque, vinha à procura de um templo que Suni, o recepcionista do meu primeiro hotel me recomendara “Go there, it’s quiet and nice at sunset”. Eu já não me lembrava se era do lado Este ou Oeste, mas senti-me tão tranquila que fui andando. Alguma coisa estava marcada no mapa.

Quando me comecei a aproximar de umas casas uma nuvem de fumo fez-me semicerrar os olhos e respirar com dificuldade. Pensei que estivessem a queimar lixo. Continuei a andar. Um homem com um turbante branco sujo, barbas camisa e lungi, todo ele cinzento, levantou os braços e baixou, abanando a cabeça várias vezes num não contínuo com o movimento dos braços. Olhei à volta. Havia mais homens, ninguém disse nada, continuei na direcção do rio e do que me pareciam casas inacabadas, pilares de cimento.

Chegando lá, olhando para os montes de madeira e tecidos e para uma chaminé enorme cor de cobre lembrei-me do que me tinha apontado no dia anterior Manesh – o meu condutor de rickshaw – do outro lado do rio. Isto explicava a fumarada e provavelmente o sinal do senhor do turbante.

Não querendo correr o risco de ser desrespeituosa, virei rapidamente à esquerda para a saída e deixei-me ficar do lado de fora, querendo e não querendo assistir àquilo. Acho que não estava nenhum corpo a arder…pelo menos nenhum recente. Não procurei e quase não olhei à volta quando estive perto, tal foi o espanto de me perceber ali. Mas acho que o cheiro seria outro, não só a madeira e fumo. Havia sim vários montes de cinzas…

Foquei-me no rio Yamuna, à minha frente. Quase vazio por causa da seca, mas quase um espelho a esta hora. Olhando em frente, para o outro lado, quase se consegue não ver o lixo nas margens. Por uns momentos é lindo.

Olhei de novo na direcção do crematório, à minha direita. Estava escondido por três conjuntos de altares com diferentes deuses. Vários macacos circulavam entre eles. Decidi sair dali. Na noite anterior ia sendo mordida por um amigo destes mais afoito por roubar a comida da minha mesa, não estava com vontade de encarar as dezenas que ali andavam.

Voltei para trás, agora pela estrada que passa por trás do crematório e ia a pensar que se calhar o templo era do lado Este, enquanto me aproximava do caminho que me trouxera. Nesse momento, um senhor com uma camisa aos quadrados apontou para a minha esquerda “Miss, the temple is there”. Olhei para uma estrada de terra que não tinha reparado antes, que dava para um portão de ferro fechado.

Can I visit?”

“Yes, no problem. Go inside.”

Fui. Junto ao portão fechado o senhor gritou-me “other door”. Mais para a esquerda estavam duas colunas de pedra negra com grinaldas. Entrei para o que era um corredor entre paredes, ao ar livre, dividido por um corrimão de metal. Nada ali era grandioso. Umas casinhas, tudo muito sujo, escuro, portas pequenas. Do lado de fora de uma delas, sapatos. Em frente, umas escadas que descem para a margem do rio. Vi que estava alguém sentado lá dentro. Comecei a tirar as botas. Um homem surgiu das escadas e, depois de rapidamente largar os sapatos entrou pela porta onde eu desatava os cordões. O chão lá dentro tinha poças de água. O tecto é baixo, practicamente à minha altura, e entra luz por janelas estreitas viradas para o rio, junto a ele. Há um altar que nasce do chão, também virado para o rio. Aproximei-me dele pela esquerda. O senhor que via lá dentro estava sentado do seu lado direito, o que entrou antes de mim tirou um tapete e sentou-se em frente, estavam mais dois homens de pé, de frente e junto às janelas. Dentro das quatro colunas e tecto que formam o altar, estava uma estátua cor de laranja. Parece feita de pedras amontoadas, com um contorno de olhos e outros desenhos que não percebo, pintados de negro. Em frente a ela um incenso queimava e havia um ralo.

Parei um pouco atrás. O homem que estava sentado à direita sinalizou-me que fosse para o lado esquerdo. Fui. Fez-me sinal que me sentasse. Sentei, tentando encontrar um sitio que nao estivesse molhado. 

Shiva”, disse de seguida, apontando para estátua. “Pray”, apontando para mim. Alguém soou um sino.

Eu não sabia o que fazer. Fechei os olhos. Ouvi o senhor que estava ao meu lado, de frente para Shiva, murmurar algo, repetidamente. Deixei-me estar, só ali, sem pensar em nada. Soou outro sino, agora uma só vez. Sobressaltei-me. Abri os olhos. O senhor que antes murmurava ajoelhou-se, tocou com a testa no chão, levantou-se e passou por trás de mim, contornando o altar por trás. Eu deixei-me ficar. O senhor que estava à direita continuou sentado e entornou um pouco de líquido de uma pequena garrafa na boca de Shiva.

Levantei-me e ia a sair por onde vim quando ele me fez sinal que contornasse por trás do altar. Depois de o fazer estava ao seu lado. Fez-me sinal que me baixasse. Ajoelhei-me. Ele passou o polegar pela estátua e tocou-me na testa, entre as sobrancelhas, abençoando-me. Sorri.

Saí com as meias molhadas, as leggings manchadas e uma pinta laranja na testa, ainda sorrindo. O Yamuna era já um espelho mais escuro. Fiz o caminho de volta à confusão de Taj Gang sem que o sorriso me abandonasse nunca. Ia a pensar nesse momento. Ia a pensar nas conversas que tive com Suni sobre a vida dele. Como partilhou comigo que estudou mais do pensava fazer só para ganhar tempo, mas acabou por sair de casa dos pais contra vontade deles, solteiro, apenas porque não concorda com casamentos arranjados e a maneira como a religião diminui as mulheres e divide as pessoas por castas, e eles não entendem. Ia a lembrar-me do dono do restaurante da noite anterior, que me contou da festa de 25 anos de casamento, dos filhos, do negócio com 30 anos enquanto eu esfregava os últimos restos de caril com o último chappati do thali delicioso. Ia a perguntar-me se tudo isto aconteceria se estivesse acompanhada.

Agora, enquanto escrevo estas palavras, penso que há coisas que só se conseguem viver no sossego de nós próprios, estando sozinhos num lugar estranho. Sozinhos mas não sós. Essa é a magia de viajar a solo.

 

2 comments

  1. Adorei a descrição, a narrativa está de tal maneira cristalina que me senti como se lá estivesse!
    Obrigada por partilhar estas pérolas!

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