Em Casa

Ontem, ao chegar no autocarro com vista para a Ponte D. Luís e os telhados a brilhar no sol de fim de tarde, pensei que chegar ao Porto também já começa a ser um chegar a casa. Culpa do trabalho com a Nomad, que também é uma família, mas não só.

Hoje, depois de caminhar toda a manhã com a minha Francesca, guiada por ela como ela costumava ser guiada por mim quando vivíamos juntas em Lisboa – meio com destino, meio sem rumo, a apreciar os detalhes conhecidos e a descobrir juntas outros olhares – pensei: agora é ainda mais casa.

Significa isso que me sinto menos a chegar a casa quando chego a Lisboa? Não.

Tenho pensado muito nisto nos últimos tempos (talvez anos): O que é chegar a casa?

O que é esse lar, para quem passa mais tempo longe das origens que junto a elas? Tanta gente que refere a impossibilidade de viajar muito tempo porque sente esse desenraizamento. Porque lhe falta o conforto de sentir a sua origem como o lugar a que pertence e quer sempre voltar.

Este assunto foi conversa recorrente entre mim e a minha amiga Kara em Cali, na Colômbia. Ela não sabia sequer se se devia considerar Australiana. “Não vivo lá há 8 anos. É quase um terço da minha vida, e o que me lembro melhor!” Então, de onde? Essa era a questão. Londres foi casa durante quatro anos, Cali era há quase um, o mundo nos outros três. “And I feel more latina than anything else, sabes?” E Cali era casa para mim também, nesse mês que lá estive. E foi outra vez, quando voltei para celebrar o meu aniversário.

E se os lares forem em toda a parte? Forem uma construção nossa? Dizer que “Casa é onde está o coração” é um clichê batido. E pouco abrangente. Para quem anda muito por aí, e se dá às pessoas que vai conhecendo, o coração também nunca está todo só num lugar. Mas o lar são mesmo essas pessoas, e as pequenas rotinas. Por isso Cali foi casa. Por isso o Porto é casa. Por isso Lisboa não deixa de ser casa.

 

Mas, no fundo, o lar somos nós mesmos. No “Abandon” do Pico Iyer, o narrador diz a determinado momento “Accustomed to staying in places not her own, she had the gift of making anywhere a home.” Isto pode ser triste, ou pode ser a salvação. Até em lugares onde, há primeira vista achei que não ia aguentar estar mais de um dia, me senti em casa depois.

É provavelmente por isso que nunca senti necessidade de comprar casa. De “ter” uma casa “minha”, como tantos amigos. Todas as casas onde vivi senti como minhas. Apoderei-me do espaço no tempo em que as ocupei e depois trouxe-o dentro de mim, nas memórias criadas. Por isso nunca tive, mas guardo tantas casas. E talvez por isso esteja sempre em casa.

4 comments

  1. Um designer,crítico, arquiteto italiano dizia “abitare é essere ovunque a casa propria”. Foi Ugo La Pietra. Quando quiseres as portas da casa estão abertas

  2. “My house says to me, “Do not leave me, for here dwells your past.”
    And the road says to me, “Come and follow me, for I am your future.”
    And I say to both my house and the road, “I have no past, nor have I a future. If I stay here, there is a going in my staying; and if I go there is a staying in my going. Only love and death will change all things.”

    Kahlil Gibran

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