Cuba Numa Cozinha

Podemos viajar quilómetros e no fim, cabe uma ilha inteira numa cozinha. Em três dias quieta fiquei a conhecer Cuba melhor que nas três semanas em movimento.

Saí de Holguin com mais dois livros na mochila, dez carregados no kindle, trinta albuns de música numa pen, uma lista de escritores, cantores e filmes cubanos para pesquisar, uma amiga, o coração cheio, uma ternura imensa e uma melhor compreensão da história e personalidade de Cuba.

A minha Cuba preferida foi a casa da Maria. Especificamente, a cozinha da Maria. Mais especificamente, a cadeira onde passei horas a beber café acabado de fazer – que ela se recusava a cobrar-me – enquanto conversávamos.

Através da Maria, Holguin redimiu o resto de Cuba. Com ela, eu percebi os meus próprios preconceitos, e percebi que a atitude rude das pessoas no serviço ao público (que eu levava a peito) não estava relacionada com o turismo, mas era dirigida a todos, cubanos incluídos. “No querida, se fueras cubana seria peor todavia. Eu já nem me chateio. Uso sarcasmo. «oiga, cuando tenga tiempo…»”

Com ela, aprendi sobre as zonas cinzentas da história cubana (que se mantém cinzentas, mas um pouquinho mais claras na minha cabeça). Por causa dela, ultrapassei o meu ego e percebi que, devido à dificuldade de viajar sozinha neste país, estava a generalizar toda a população com base num par de experiencias menos positivas. É dificil, sim. Há muita gente a tentar enganar-nos, o acosso na rua é constante e os sorrisos não abundam sem que haja algum interesse por trás. Mas depois, há pessoas como a Maria.

Cheguei à sua Casa Particular porque não queria pagar mais de 10 CUC por um quarto. Os hosteis são inexistentes fora de Havana e viajar sozinho torna-se muito caro. Nos primeiros dias tinha-me juntado a um grupo de gente que conheci em Havana e partilhávamos os quartos duplos a 20 CUC que as pessoas alugam nas suas casas. Agora estava de novo sozinha e depois dos autocarros e o alojamento de Santiago o meu orçamento estava reduzido. Já tinha ido a duas casas e nenhuma quis baixar dos 15 CUC. Eu mantive a minha convicção de que arranjaria alguma coisa. Um dos rapazes que angaria clientes para as casas a troco de comissões (é práctica corrente) lembrou-se de um lugar.

No momento em que a Maria abriu a porta, sorriu e nunca mais se calou eu soube que estava no sitio certo, e não só por causa do dinheiro. Depois do rapaz lhe dizer que eu só queria pagar 10, ela respondeu “A lutar com o orçamento? En eso andamos todos. Bienvenida!” Desde esse instante e ao contrário das outras casas que parecem mais pousadas onde toda a gente está sempre a tentar vender refeições, eu senti que partilhava o seu lar.

Durante três dias sentamo-nos naquela cozinha a falar, fomos a uma feira de artesanato com os seus amigos e passeámos por Holguin. Ela foi comigo ao mercado para que não me cobrassem a mais na fruta, emprestou-me os seus binóculos quando fui ao miradouro, fez-me o pequeno almoço (e não me deixou pagar-lho), ofereceu-me um batido de banana quando voltei da praia, escaldada, e partilhou os contactos que tinha em Viñales, onde eu ia a seguir.

Na minha segunda noite fui ver o pianista e compositor Frank Fernandez tocar com a Orquestra Sinfónica de Holguin. Dois dos melhores de Cuba, por 50 centavos. Sentada sozinha entre holguineros senti-me uma priviligiada. Nessa mesma manhã, uma orquestra tocava clássicos de salsa no parque. Todos os dias acontecia alguma coisa nas ruas ou num centro cultural.

Enquanto caminhava pela cidade, pensava em como esta não tinha nada de especial para “ver”, mas o bem que me sentia ali. Em como viajar, para mim, era cada vez mais as pessoas e a cultura que as vistas. E em como a única maneira de apreciar isso é viajando devagar, com tempo. Se eu apenas tivesse uma semana em Cuba, não teria ido a Holguin. Teria partido com aquela embirração silenciosa contra Cuba e os cubanos que trouxe de Santiago

Em vez disso, saí de Holguin a correr para o terminal porque a Maria e eu nos distraímos a ver o “Fresa e Chocolate“, um clássico cubano dos anos 90 que ela insistiu que eu TINHA de ver com ela. No autocarro a caminho de Viñales escrevi no meu caderno: As pessoas fazem os lugares. Há uma Cuba antes de Holguin e uma Cuba depois de Holguin. A minha Cuba preferida é a cozinha da Maria.

3 comments

  1. Olá Filipa!
    Estava a ler-te e a sentir tantas coisas que também vivi. Saí de Cuba confusa e só passado algumas semanas, quando comecei a escrever sobre Cuba, é que realmente descobri a Cuba que tinha amado!
    Espero que apesar de todas as aventuras e desventuras tenhas encontrado encanto em Cuba fora da cozinha da Maria.
    Beijinhos e boa viagem!

    • Olá Patricia!

      Lembrei-me tanto da nossa conversa quando andei por lá. Na altura não percebi bem o teu desencanto, e depois fez todo o sentido.
      Encontrei algum, sim. Mas continuo com muitos sentimentos contraditórios.

      Beijinhos e boas viagens!

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