De Quito, da nostalgia, e das certezas

Seis e meia da manhã num hostel/hotel de hippies no centro de Quito. Acabei de dar um abraço de despedida ao Roberto, a cama dele está vazia e a parede onde se espalhava a sua mochila também. Olho para o tecto com um vazio no estômago.

Quem é o Roberto? Um amigo antigo que veio acompanhar parte da viagem? Alguém que me acompanha à algum tempo? Alguém porque quem me apaixonei? Nada disso.

O Roberto é um rapaz italiano que conheci há 5 dias em Popayan, na Colômbia. Calhou que eu estivesse a fazer couchsurfing na mesma casa que Hug, catalão, que em Cartagena se tinha feito amigo de Julian, francês, que calhou estar também em Popayan na mesma altura num hostel, onde estava Roberto. Calhou que, num dia em que Hug saiu para dar uma volta com Julian, Roberto os acompanhasse. Calhou que eu tivesse saido para ver o pôr-do-sol e os tivesse encontrado a todos na rua. E calhou que todos quisessemos viajar a Quito, no Equador, essa noite. Depois disso, calhou que Hug e Julian decidissem pedir boleia na manhã seguinte, já depois da fronteira e eu seguisse no segundo autocarro com Roberto.

Em Quito, instalados no mesmo quarto deste hotel, passámos 24 sobre 24 horas juntos. Isto poderia não significar nada, mas calhou também que o Roberto fosse alguém com quem as conversas eram fáceis e interessantes e os silêncios confortáveis. Alguém que partilhava o meu amor pelos livros, as palavras, a beleza e tranquilidade das montanhas, o valor da importância da origem da comida e a necessidade de viver a um ritmo mais lento, mais próprio, menos consumista. Alguém com quem Quito se tornou fácil. Alguém que me mostrou (uma vez mais) que a associação de aspecto exterior a estereótipos existe para ser quebrada.

Agora, é alguém que não sei quando volto a ver. Estaremos em contacto, mas esta presença física de caminhar lado a lado, decidir direcções, subir montanhas, conversar num terraço, partilhar cervejas, surpreendermo-nos em conjunto, isso poderá não voltar a acontecer.

 

Então, olho para o tecto. Penso também no caminho que vem, nos próximos meses, nas próximas horas, em que me faço de novo a esse caminho, de novo sozinha. Então, o vazio no estômago.

Quero isto? Quero continuar a fazer-me ao caminho sozinha? Não era mais fácil escolher um workaway numa praia ou num qualquer sitio relaxado e passar os próximos meses assim? O vazio no estômago aperta mais, primeiro, para logo depois relaxar. Não!

Não conheceria pessoas como o Roberto, se assim fosse. Não aprendia o que tenho aprendido até agora, se assim fosse. Não foi para isso que vim para este lado do Atlântico. Tenho uma experiência numa comuna a começar esta tarde. A senda pelas comunidades em busca da sustentabilidade continua agora no Equador e esta é uma comunidade diferente, enraízada em costumes ancestrais, com legislação e direitos próprios. Coisas que não conheceria quieta num canto, em casa ou num qualquer sitio turistico.

Foi para isto que vim. É isso que me move, ainda que às vezes esse mover-me sozinha me dê esta nostalgia, depois de mais de um mês acompanhada. Primeiro em Cali, depois em Popayan, agora em Quito. Sei que é este o caminho e é precisamente esse caminho que me permite partilhar e dar mais valor a momentos como estes dias em Quito. Que me enriquece. Que me faz cruzar o trajecto de gente como o Roberto (e tantos outros), que passam a fazer parte desse caminho, da minha história, que se vai enchendo de personagens, de acção, de conhecimento. Que me vai permitindo entender o que quero, o que não quero e como me quero ver neste mundo que é tão grande e tão uma ervilha ao mesmo tempo.

Isso entusiasma-me. Sei que não quero, e não vou, perder esse entusiasmo. Sei que terei muitos mais momentos de olhar para o tecto e vazios no estômago, e sei que tive momentos desses muito mais fortes no meu quarto em Lisboa ao imaginar uma vida sem esta descoberta, sem os Robertos que já conheci, sem este caminho que vou trilhando. Sei que esta montanha-russa de emoções vai continuar, e que a prefiro à monotonia das certezas aborrecidas. Sei que a saudade das pessoas e dos lugares que deixamos para trás é sinal de laços fortes, de momentos bonitos. Não os trocava por nada.

Então, levanto-me da cama e começo esta nova etapa.

 

7 comments

  1. Apesar da saudade que sinto de ti, vai em frente, porque isso, mais tarde, serão recordações inesquecíveis que poucos se podem vagar de as ter tido. O mundo é o teu lugar, sê feliz princesa.:-)

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