Depois do Terremoto

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Tivemos sorte. Paraísos houve que se volveram Infernos. Aqui, apenas vidro no chão, uma porta empenada, uma única noite na estrada.

Fica o medo. De novos abalos fortes, que as cabanas podem não aguentar. De uma onda gigante, apesar da ausência de alertas, mas nós com o mar a dois passos. Fica o despertar subito. Uma cama que apenas abana em sonhos, ou talvez não, talvez a sério. O corpo já não distingue se treme sozinho ou com a terra.

Mas tivemos sorte. Tanta sorte. Paraísos houve que se volveram Infernos. Aqui, os caranguejos continuam a espreitar com olhos curiosos, enquanto o sol se esquece que a terra se mexe e segue a esconder-se em banhos dourados, como num dia qualquer.

Aqui, juntam-se vizinhos, troca-se a electricidade que uns têm e outros não pela comida que cozinhamos em comunidade. Rimos, entre recontares da mesma história, vezes sem fim. A cada vez um novo pormenor. Bebem-se cervejas na procura de uma normalidade que não existe. Trocamos olhares cumplices, acenares que perguntam sem palavras: Continuamos bem?

Sim. Ainda que a terra continue sem parar. Ainda que, entre cortar um tomate e ligar o fogão tenhamos de sair a correr, porque tudo abana de novo, e o coração voltou à garganta. Ainda que os olhos se mantenham no mar, vigilantes. Ainda que a procura de sons de passaros, de sinais, seja constante. Ainda que estejam mochilas de emergência à porta dos quartos. Ainda que as noites se passem de olhos meio abertos. Continuamos bem.

Paraísos houve que se volveram Infernos. Aqui, tivemos sorte. Tanta sorte.

(palavras escritas nos dias que se seguiram ao terremoto que destruíu grande parte da costa norte Equatoriana. Este “Aqui”, é Mompiche, muito perto do epicentro, mas muito pouco afectado, por comparação com a destruição que se viveu (vive) noutros lugares. Eu, estou ainda nas Cabañas del Mar, na praia, a 3km da vila. Passou agora uma semana e meia e a terra finalmente deixou de tremer há 4 dias, mas só agora consegui internet suficiente para escrever)

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