Detalhes de Venao

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Estou em Playa Venao, no Panamá, há um mês, a trabalhar no projecto de permacultura de EcoVenao. Sinto-me não só em casa, como abençoada quase desde o primeiro dia. Tentava perceber o porquê e não cheguei a nenhuma razão específica. Hoje, o Guillaume pediu-me para pensar em críticas construtivas para o projecto e para a maneira como o trabalho está organizado no voluntariado. Estou a organizar ideias, mas a primeira coisa que lhe disse foi que, ao contrário do que senti nos outros lugares onde fiz o mesmo tipo de trabalho, depois de um mês, e a três semanas de partir, não tenho vontade de sair daqui. Pelo contrário, acho que me vai custar muito dizer adeus. Continuo sem ter uma razao específica. Talvez não haja…Talvez sejam:

O omnipresente zumbido das cigarras – gigantes verdes e azuis – apenas abafado pelo trovejar e pelo ruído da chuva quando o céu nos parece cair em cima.

As antenas dos eremitas, minúsculos e enormes nas suas distintas conchas emprestadas a perscrutar a praia ao fim da tarde. A maneira como a areia parece mover-se por causa da quantidade destas conchas caminhantes e caranguejos transparentes que correm com o vento.

O uivo dos macacos uivadores, que mais parece um rugido e que me faz(ia) imaginar bichos muito maiores. O restolhar das folhas quando estes e outros saltam de ramo em ramo por cima do restaurante e no caminho para a praia.

O brilho da espuma das ondas quando o sol se põe, nas nossas costas e de frente para elas. A maneira como pinta de dourado a humidade que o vento arrasta do mar. O reflexo do céu na maré baixa, a duplicar as nuvens e as cores.

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O espanto de ver baleias aos saltos no horizonte quando tentava pôr-me em pé em cima de uma prancha de surf.

A gargalhada da Ale. O amor e deslumbre sonoros e contagiantes com os animais, com as árvores, com as pessoas, com a música, com a beleza do mundo. A energia e força que a transformam numa faísca colombiana que carrega baldes, faz buracos, planta mentas, liquefaz batidos, cozinha, pinta a casa, atira-se às ondas, rema num kayak à chuva e grita a plenos pulmões faça chuva ou faça sol. A nossa perdição conjunta por patacones e yuca frita.

O risinho inconfundível do Michael, a quebrar o silêncio partilhado enquanto lemos e a provocar-me um sorriso, de cada vez. As frases que nos tocam ou divertem e que trocamos no meio desse silêncio.  O seu entusiasmo ao comprovar a fertilidade do solo pela quantidade de minhocas e insectos. As conversas intermináveis que vão da melhor maneira de fazer uma sopa ao sentido da vida, passando pelo caminho que nos trouxe até aqui e as pessoas que fizeram parte dele, enquanto cavamos, preparamos compost, cozinhamos, balançamos nas hamacas, passeamos por aldeias coloridas na companhia de cães sarnentos e galinhas.

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O sotaque francês do Guillaume, em espanhol e em inglês, a explicar-nos as rotinas, as plantas, como fazer sabão, como fazer pão, os planos para o futuro deste projecto. A maneira honesta como admite que muito do que foi fazendo foi por tentativa e erro, porque essa é a maneira de adaptar o conhecimento teórico ao terreno. O optimismo do “probamos…”

As palavras do Bill Mollison, o pai da permacultura, que leio depois de almoço, colocando em contexto o que vejo acontecer enquanto trabalho durante a manhã.

O yoga matinal antes do trabalho, que nos revezamos a liderar num deck virado para o mar. O cheiro do incenso que o Fede acende aí, antes de chegarmos.

Os abraços do Fede, tão sentidos, tão argentinos. A maneira como acabou de me chamar lechuguita.

Os pirilampos. O escuro que parece preenchido por luzes de natal em todo o lado.

As dezenas de libélulas que nos fazem razias enquanto trabalhamos na zona mais alta da quinta, e apenas aí. As borboletas que nos seguem por todo o lado.

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O cheiro do manjericão e da menta nas nossas mãos, depois de uma hora a transplanta-los. O sabor cítrico das folhas da Flor de Jamaica e Moringa, directamente da quinta para as saladas do almoço.

Os copos de vinho branco enquanto a noite cai, apenas os pirilampos se fazem ver, as conversas surgem, os silêncios confortam e uma guitarra é dedilhada, de vez em quando.

As andorinhas do mar na sua corrida, como se nao tivessem asas, pernas longas a alta velocidade a fugir da espuma à beira de água. O voo dos pelicanos, ao longo das ondas, como se também surfassem. Os passeios de fim de dia na meia lua que é a praia, a apreciar todos estes pormenores.

Os sapos do tamanho de uma mão que atravessam os caminhos, o restaurante, o terraço das hamacas, um salto de cada vez como se quisessem passar despercebidos.

Mates que chegam à minha mão pela mão do Mauro ou da Mercedes às vezes na praia, às vezes enquanto escrevo no restaurante, às vezes estendida na hamaca a ler ou a conversar e que me sabem àquela outra casa do coração. Estar rodeada de argentinos também é sentir-me em casa.

É…talvez seja tudo isto.  As pessoas, os pormenores, e este ritmo que me dá tempo para os apreciar, estar verdadeiramente no momento, e sentir-me privilegiada por os viver.

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