Diários de Varanasi: O Espelho

Há pessoas que brilham de dentro para fora. Estar ao lado de Jhuma acalma-nos. O sorriso tranquilo que lhe baixa os cantos dos olhos, os gestos lentos e a voz suave embalam-me enquanto me conta que se diz que Varanasi não está na Terra. Está num plano mais elevado, na transiçao para a energia dos Deuses, e que por isso eles não saem daqui.

“This is a very special place we are sitting in.” E é. Não só Varanasi, mas esta varanda-telhado que já foi uma casa. Está uma parede ainda de pé, com uma porta fechada para lado nenhum.

Lá em baixo, a vida nos ghats. Rapazes a jogar cricket, babas sentados, vendedores de chai, homens a oferecer passeios de barco, turistas a passear, dezenas de barcos no Ganges. As vacas estao sentadas, as cabras passeiam pelos telhados e mais rapazes lançam papagaios que dançam por cima do rio. Há cães na brincadeira uns com uns outros. Ouvem-se motores de barcos, música, preces, sinos, risos de crianças, gritos de rapazes.

Diz Jhuma que em Varanasi nos olhamos a um espelho. Que por isso há muita gente que não gosta da cidade. Não gosta da sua própria imagem. Mas que também há muita gente que se encontra. Que antes não se via, e passa a ver. Eu…não sei o que é que Varanasi tem. Mas sei que no meio do caos, sinto imensa paz.

Vim ter com o Zé. Caminhámos com o Pedro até à entrada de Varanasi, esta manhã e depois foi cada um à sua vida. Agora, o sol está quase a pôr-se. Ele ainda não chegou e Jhuma faz-me companhia. Quando chega, continuamos os três ali sentados. Conta-nos como chegou a Varanasi com 25 anos, e como não gostou nada.

It is different. And when you don’t understand you reject.I had to learn.” Sendo Bengali, não falava Hindi nem Inglês. Primeiro sentiu-se miserável. Depois decidiu-se a entender. E foi aprendendo. Não só a comunicar, mas a viver nesse plano que ela acredita superior. “You do your work, inside and out. Here you learn, there is life, and there is death and there is a line in between. But it is all the same. You can’t be too attached to your past, or thinking too much ahead. You do the line. Here you can see that.”

Iamos dar uma volta, mas acabamos por ficar alí horas. Jhuma vai e vem. Traz-nos chai enquanto ainda é dia. Senta-se a conversar, desaparece outra vez. Já de noite, traz-nos jantar.

Falamos connosco e sobre nós. Falamos com ela. Jhuma alimenta-nos o corpo e o pensamento. As horas passam sem que as notemos.

Continuamos alí sentados. Vimos o sol desaparecer. Vimos nascer uma lua vermelha. As vacas recolheram. Os ghats estao silenciosos.

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