Sonhos Sagrados

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Última noite. O sol já se escondeu. Resta ainda a sua luz a pintar a franja  de céu por cima da cordilheira de amarelo. Antes, esteve laranja, lilás, azul claro e depois escuro, o quarto minguante a brilhar entre duas nuvens cor de rosa.

Acabo como comecei. Sozinha, à luz das velas, atrás de um livro. Iron and Wine no ar, que esfria rapidamente enquanto a luz desaparece. Desceram todos a passar o fim de semana na vila. Eu quis ficar. Quando subi, estavam também lá em baixo.
Estas duas semanas na comunidade Sacred Sueños não foram nada do que esperava, mas também não sei bem o que esperava. Mais gente, seguramente. Ao mesmo tempo, estes momentos comigo são preciosos e apreciados. Não sei o que vinha buscar exactamente. Mas sei o que levo comigo:

O som de dezenas de pios de pássaros ao acordar.

O som das asas de um colibri, que ouço antes de ver o azul e verde brilhantes das suas penas, enquanto estou agachada a cheirar a rúcula da horta.

O deslumbre de quem, apesar de aqui viver há três anos, ainda se maravilha com a beleza dos castanhos e verdes de um outro colibri, que sempre se alimenta das flores da árvore mais alta do lado esquerdo do deck.

Aprendizagem diária. A plantar ervilhas, a cuidar de árvores de fruto, a podar, a construir estruturas com ramos para suportar as camas de terra para plantar, a revestir naturalmente paredes. Aprender que o conhecimento está em todo o lado, que só é preciso vontade e meter mão à obra.

O entusiasmo de Yves ao falar das plantas. Como fala em “dar amor” quando me explica como podá-las, remover as ervas daninhas e distribuir o adubo orgânico.

Inspiração diária por essa força de vontade, que luta há 12 anos contra a inacessibilidade, a dureza fisica, a estupidez e inveja dos homens. Que trabalha em conjunto com a natureza, mesmo quando esta parece lutar contra. Que recupera uma terra esgotada pelos homens, sem esperar nada em troca.

O sabor dos morangos silvestres e das uvillas que apanho das árvores e ponho na boca enquanto caminho para a estufa.

A paz dos almoços de duas horas, depois do trabalho matinal. As conversas que se alongam, porque há tempo para tudo, mesmo que o dia practicamente termine quando a luz do sol se vai, e que haja sempre trabalho para fazer. Porque com a companhia apenas uns dos outros, da musica, dos animais e dos livros, as horas alongam-se, rendem, não se perdem em distracções superfluas, em ficções vazias.

O sabor de chocolate acabado de fazer. O entusiasmo de esperar que arrefeça e endureça, à luz das velas. A maneira como se cola aos dedos, e como o lambemos das formas.

Ler até me fartar. Não me fartar de ler. Ler à luz das velas, à luz do sol, à sombra das árvores, à sombra do deck.

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A biblioteca da montanha, com os livros “vivos”. Livros sobre hortas com terra entre as folhas, livros sobre fabricação de queijos com bolor nas pontas, livros de receitas com manchas de gordura, livros sobre contrucção com terra com lama na capa, livros sobre cortes de animais com manchas de sangue.

Receitas deliciosas. O cuidado com a comida. O aproveitamento de todos os ingredientes. O sabor de refeições feitas com dedicação.

A cordilheira andina em todas as suas cores e alturas à minha frente. Enquanto leio, enquanto como, enquanto cozinho, enquanto converso, enquanto arranco ervas daninhas, enquanto podo, enquanto construo com terra, enquanto preparo a terra, enquanto apenas olho para a cordilheira andina em todas as suas cores. Cadeias montanhosas que se sobrepõem, cada vez mais altas, em verde e castanho e amarelo e negro sombra contra o céu pintado de nuvens.

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A explosão de côr dos pores do sol. Todos diferentes. Todos os dias.

Os milhões de estrelas, que parecem brilhar mais forte.

Sentir-me mais adaptada a qualquer condição. Todos os dias mais.

Aprender. Aprender. Aprender a buscar o conhecimento, e a lutar por ele. Aprender a construir um projecto, mas a deixá-lo evoluir para outras coisas também.

Aprender que tudo é possível. Se um homem pode construir uma comunidade na montanha, do nada. Se ao longo de roubos, abandonos e solidão pode fazer com que uma terra esgotada produza. Se, sozinho, pode construir casas. Se, sem estrada, no cimo de uma montanha, pode criar um lugar onde, agora, mais pessoas também constroem casas a partir da terra, e, sozinhas a aplanar terreno e empilhar sacos de terra, tentam fazer evoluir o projecto. Se tudo isto é possível, somos capazes de tudo a que nos proponhamos. Esse ensinamento é inspirador, é reconfortante, é empoderador.

Todos temos a nossa montanha. Resta saber se deixamos que ela nos empurre de volta ao vale, ou se decidimos lutar por ela. Conquistá-la. Habitá-la.

Aferramo-nos aos nossos sonhos, mesmo quando passamos por pesadelos, ou desistimos? Conquistamo-los, se são sagrados.

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3 comments

  1. É sempre tão bom ler-te, Filipa. É tão bom sentir os cheiros da fruta, o som das azas de um colibri, as cores dos pores-do-sol na cordilheira ou o sabor de um chocolate lambido dos dedos de mãos dadas com tudo o que escreves. Lindo. Obrigada por estes momentos.

  2. Obrigada filha, por me fazeres sentir no alto da montanha, mesmo estando tão longe eu estou tão perto de ti. Obrigada por seres quem és e pelos belos momentos que passo a ler-te.Obrigada por todos estes momentos.

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