Volta ao Mundo num Hervido

A memória. Essa neblina confusa, prateleiras misturadas.

Em Bogotá, a beber um hervido à luz da vela numa tarde chuvosa, soa uma milonga. Dessas lentas, campesinas. A guitarra faz-me lembrar o fado, e o a guitarra fazer-me lembrar o fado leva-me aos primeiros dias em Córdoba, na Argentina. Ao primeiro espectáculo de fado. Ao meu espanto com a semelhança do fado e do tango. Ao espanto dos amigos portugueses quando o comentei e à concordância da Gringa quando lhe mostrei.

Córdoba leva-me à Célia, e a Célia à India, e a India aos chai, e o chai de volta a este hervido, que não tem nada a ver a não ser ser também bebida de conforto.

E em casa, quando fizer um hervido, ou um chai, ou um mate, ou quando ouvir um tango ou um fado ou uma salsa, ou quando me cheirar a sândalo ou a maracujá ou a churrasco, volto a dar a volta ao mundo na memória dos sentidos.

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