Tudo isso é precioso

20160222_102746

Quando estou no viveiro, só eu, a minha música e as plantas, o tempo voa. Seja a encher sacos de terra, a escolher e ordenar os sacos com plantas por tamanhos, ou a transplantar árvores em potência do local onde onde são semeadas para os sacos que preparei. Arrancá-las com cuidado, podá-las, criar espaço na terra do saco, enterrar a raiz, acrescentar terra, calcar. Repetir.

Hoje transplantei 80. Entre isso, recolher nêsperas, retirar-lhes os caroços (sementes) e pô-los a secar para daqui a uns dias semear, foram-se as quatro horas de trabalho da manhã. Senti-me útil. Senti que não tinha de me esforçar para entender e fazer-me entender.

2016-02-20 12.09.29 1

Somos muito diferentes, esta família e eu. Sinto-me bem tratada, mas excepto nas conversas sobre ecologia com o Ramiro (o filho mais velho, que organiza estes voluntariados através da comuna) não me consigo identificar com estas pessoas.
Para além da dificuldade em compreende-los quando falam entre si (é castelhano, mas com um sotaque e uns maneirismos que complicam muito a compreensão), não temos muito que partilhar. Já se fizeram as perguntas sobre a família, o trabalho… não sobra muito mais. As preocupações aqui são outras. Os animais, a horta, os vizinhos, os dentes (tantos problemas).

Doña Maria e Don Prudêncio, os pais, não sabem ler nem escrever e nunca saíram daqui. Ramiro fez o liceu e é um equatoriano atípico. Aos 41 anos, não casou nem teve filhos. Vive aqui, preocupado em ajudar os pais, e os irmãos. Juan, 26 anos já tem uma filha com 4, que o visita todos os dias com a mãe. Ele vive aqui, elas com a família dela. Juan esteve na faculdade, mas quando a filha começou a escola, deixou de ter rendimentos que dessem para tudo. Emiliano, 21 anos, está na faculdade. Nos 15 dias que vou passar aqui vou vê-lo a chegar às oito da noite, quando já está cada um no seu quarto, jantado, a ver televisão, e eu estou na sala a ler. Dizemos boa noite, e é tudo. Há outro irmão que vive na casa ao lado e que vejo apenas duas vezes, e dois outros que passam a buscar os filhos, que às vezes cá passam a tarde. Mal falamos e todos eles mal falam entre eles. Parece-me estranho ao início, mas percebo mais tarde que não há demonstrações de afecto por aqui.

Eu faço perguntas, tento interessar-me, mas ao fim de 4 dias começa a esgotar-se o tema. Ao fim de 1 semana, repetem-se os comentários à falta de chuva, ao bezerro, aos problemas da comuna. E depois, as pequenas coisas: a comida, a maneira como se come (colher e mão), as piadas pelo facto de eu não comer carne nem beber leite, a falta que sinto de um café. E as grandes coisas: a falta de conhecimento do que é o mundo fora do Equador (até fora de Quito), a música, a maneira como sinto que não entendem as horas que passo a ler.

Não julgo absolutamente nada. Esta é a vida destas pessoas, que têm a amabilidade de me receber, mas há um sentimento de diferença. Há empatia, mas não há identificação. Então, no viveiro, com as plantas e a música, posso relaxar.

Sinto que Ramiro tinha potencial para muito. Aprendeu imenso sobre agroecologia e bioconstrução sozinho. Tem espírito crítico, sentido práctico e muita vontade de aprender e saber mais. E tinha vontade de conhecer mais mundo, mas sente-se responsável por cuidar dos pais e dos irmãos. E sinto que esta possibilidade de contactar com pessoas diferentes, de poder falar das suas ideias, que nem sempre são compreendidas, o alivia um pouco dessa prisão. E fico feliz por lhe poder proporcionar isso.

***

Hoje, 10 dias depois de chegar, e depois de ter estado a ler sobre viagens semelhantes à minha, mas mais longas e mais aprofundadas neste mundo, senti um entusiasmo renovado sobre esta aprendizagem que estou a ter, e o peso que ela pode ter no meu futuro. Aproveitei melhor o trabalho, pus ainda mais vontade e amor naquelas árvores e preocupei-me ainda menos com a terra debaixo das unhas. Senti que os momentos de falta de identificação, o excesso de batatas com arroz, o aborrecimento esporádico, tudo valia a pena pelas plantas e pelo conhecimento que estou a adquirir. E dei-me conta que, apesar dessa falta de identificação, levarei daqui a gargalhada de Doña Maria, o sorriso carinhoso de Don Prudêncio, o interesse de Juan e as muitas conversas com Ramiro. Tudo isso é precioso.

2016-02-26_17.35.55

(Cheguei até aqui através das minhas pesquisas sobre comunidades. Soube da Comuna Tola Chica através deste site. Ramiro é quem organiza os voluntariados. A família Azaña faz parte da comuna, através dos pais, mas a casa deles não é nos terrenos da comuna. O viveiro onde trabalhei é nos terrenos deles, e o Ramiro é o responsável. O contacto com a comuna foi esporádico, mas sobre isso falarei mais tarde)

One comment

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *