Sobre a poda (e a vida)

Enquanto melhoro o meu método de transporte das plantas, para garantir que as raízes não se secam, que sofrem o menos possível, e canto, com a música nos ouvidos, sinto uma alegria e uma paz que ainda não tinha sentido com esta plenitude aqui.

Enquanto penso no desenvolvimento destas árvores, penso em como o nosso ritmo tem de acompanhar mais o da Natureza, slow and steady, e em como eu fui sempre assim. Nunca fui de velocidades, sempre de resistência. Não ganhava provas de natação porque nunca nadei rápido, mas podia estar a aula toda a nadar sem parar. Não entrei para o exército (felizmente!) porque fiquei logo pelo teste de velocidade, mas todas as outras provas passava com facilidade. Não faço amigos rápido, mas quando faço, mantenho-os. Não gosto de pressas.

Enquanto olho à volta para os diferentes estágios de desenvolvimento das árvores penso que nós, como elas, também necessitamos dos nossos viveiros onde nos desenvolvemos mais protegidos quando estamos mais frágeis. Isso vai acontecendo por fases, ao longo da vida. Enquanto somos crianças, com quem nos cria, e mais tarde de cada vez que, auto-inflingido ou por situações que fogem do nosso controlo, nos vemos demasiado pequenos para tudo o que nos rodeia. Aí, se temos sorte, tal como estas árvores que eu hoje podo, conseguimos um espaço protegido onde podemos largar aqueles ramos que já não nos servem, que apenas consomem energia inutilmente, que nos esgotam lutando por eles quando vão definhar de qualquer maneira.

Se temos força suficiente, somos capazes de o fazer sozinhos. Quando não temos, seremos afortunados pelos amigos que são capazes de o fazer por nós. Que com as suas palavras cortam esses ramos que não servem e nos colocam terra fresca para que o que tem potencial receba toda a energia que necessita para florescer.

Enquanto arranco com cuidado, para replantar, e ponho o pensamento nestas árvores, para que aguentem este esforço de modo a que possam crescer depois mais fortes e saudáveis, penso nas vezes em que saio de Portugal, com as raízes penduradas. Em como, de cada vez, corto as que me prendem sem me fazerem mais forte, e recolho e cuido as que me nutrem. Em como por vezes sinto o peso de ramos que me chupam a energia que deveria estar a ir para o crescimento, para a evolução do que quero ser como pessoa, e como a palavra certa, de perto ou de longe, é a podadora que os elimina.

Enquanto caminho entre a terra, os ramos cortados e as árvores, agradeço(vos) por essas palavras.

2 comments

  1. Tão bonito Filipa, quando olhamos à nossa volta e observamos a Natureza, rápidamente nos damos conta de que todos estamos relacionados (nós, as árvores, as plantas, os de mais animais, os elementos) e que, no fundo, somos feitos do mesmo.

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